HISTÓRIA DO SEMINÁRIO EPISCOPAL DE ANGRA
O Seminário Episcopal de Angra é uma instituição de ensino religioso destinada à formação de sacerdotes. Integrado na Diocese de Angra, localiza-da no centro histórico da cidade património de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, nos Açores. Fundado em 1862, é a única instituição de ensino eclesiástico da Igreja Católica no arquipélago dos Açores. Durante anos foi, também, a única instituição de formação pós-secundária nos Açores, perante as dificuldades de acesso à rede liceal, assumido até à década de 1970 um papel central na formação da intelectualidade e da classe dirigente açoriana. O Seminário de Angra conheceu o seu apogeu nas décadas de 1950 e 1960, funcionando hoje com uma população estudantil muito reduzida.
Origem
Apesar do Concílio de Trento (1545-1563), na sua Sessão XXV, ter determinado que, a bem da qualidade e da ortodoxia, a formação dos sacerdotes se faria em seminários, durante os primeiros três séculos de história da diocese angrense, os clérigos açorianos preparavam-se maioritariamente nos conventos de religiosos existentes nas ilhas e nos Colégios dos Jesuítas de Angra, Ponta Delgada e Horta (até à sua expulsão). Alguns frequentavam seminários portugueses, com um pequeno número a frequentarem a Universidade de Coimbra, a Universidade de Salamanca, seminários e colégios em Roma.
Face à importância que tinham assumido, a ideia de criar um seminário nos Açores, ganhou um novo impulso aquando da expulsão dos Jesuítas. Pois, fecharam os três colégios existentes, deixando a formação essencialmente nas mãos dos conventos Franciscanos, manifestamente impreparados para tal.
Foi neste contexto que logo em 1788, o bispo D. Frei José da Avé-Maria Leite da Costa e Silva, à semelhança de outros prelados em dioceses que enfrentavam o mesmo problema, propôs criar um seminário no Colégio de Angra dos Jesuítas expulsos, mas nada se fez porque tal proposta foi rejeitada pelo governo.
A ideia de criar um seminário nos Açores manteve-se uma preocupação central dos prelados, de tal forma que o bispo D. José Pegado de Azevedo (1802-1812), deixou em testamento a sua biblioteca ao seu sucessor, até que
houvesse em Angra um seminário.
Nas Bulas de Confirmação de D. Frei Estêvão de Jesus Maria para bispo de Angra, o papa Leão XII manifestava o desejo de que ele fundasse um seminário, conforme prescrevera o Concílio Tridentino.
Foi assim que, aproveitando este mandato explícito e as condições favoráveis criadas pela Regeneração que em 1862, passados 328 anos da fundação da Diocese e quase 300 após aquele Concílio, começou a funcionar um seminário nos Açores. Foi aproveitado para tal fim o extinto Convento de São Francisco de Angra, cujas obras de adaptação levaram dois anos a realizar. A sua inauguração solene realizou-se a 9 de Novembro de 1862. Apesar dessa abertura solene e das avultadas obras que se realizaram, só em 1864 é que o Seminário Episcopal de Angra recebeu os seus primeiros alunos internos.
Na sua fase inicial, o Seminário e o Liceu de Angra partilharam instalações no antigo convento franciscano. No ano letivo de 1901-1902 foi entregue ao Seminário todo o edifício.
A Implantação da República
Na sequência da implantação da República em Portugal e da separação entre Igreja e Estado, no princípio de outubro de 1911, invocando ordens superiores, o administrador do concelho de Angra do Heroísmo tomou conta das chaves do edifício, ficando todo o mobiliário escolar, biblioteca, o pequeno museu, instalações elétricas, louças, e demais equipamentos na posse do Estado. No ano letivo seguinte, não existindo internato, alguns alunos abandonaram o curso, outros foram para suas famílias aguardar a resolução da questão. Os seminaristas da Terceira instalaram-se em casas particulares e iam receber as lições à morada dos professores. Face à inexistência de prelado diocesano, pois o bispo D. José Correia Cardoso Monteiro falecera pouco antes da Revolução e a falta de reconhecimento do novo regime pela Santa Sé impedia a sua substituição, os alunos que terminavam o curso eram ordenados em Roma e depois em Lamego, onde o antigo bispo de Angra, D. Francisco José Ribeiro Vieira e Brito, conferia a ordem completa.
A mudança para as atuais instalações
Em consequência do conflito entre a Igreja e o Estado, o vigário capitular, Dr. José dos Reis Fisher, esteve entre 1912 e 1914 deportado em Ponta Delgada. Face à necessidade ingente de um Seminário Diocesano, então sem instalações na ilha Terceira, decidiu procurar instalações na ilha de São Miguel, encetando negociações com o proprietário do Convento de S. Francisco, em Vila Franca do Campo. Estava a aquisição quase decidida, quando recebeu um telegrama, anunciando-lhe que o procurador na Terceira tinha efetuado a compra, na data de 2 de Março de 1914, da casa do barão do Ramalho, rua do Palácio, em Angra do Heroísmo. Como a Lei não permitia que nos Açores houvesse um instituto com o nome de Seminário, após pequenas adaptações, a partir do ano letivo de 1914-1915 foi instalado naquele imóvel o Internato, funcionando ali a moradia dos professores, as aulas para o Curso de Teologia, o refeitório, a capela e a residência dos poucos alunos, que
continuavam a frequentar o Liceu.
Com o aumento do número de alunos, D. Manuel Damasceno da Costa reconheceu a precariedade do edifício e comprou o solar do conde da Praia, no alto de Santa Luzia (onde hoje funciona o observatório meteorológico), para nele se construir um edifício para o Seminário. Contudo, a nova localização despertou oposição por parte dos professores, alegando a distância e altitude em que o Seminário ficaria em relação à cidade. O velho solar veio por isso a servir apenas para alojamento de alunos, sendo depois a antiga Casa do Conde demolida para se aproveitar a pedra na obra de adaptação que, por autorização do bispo D. Guilherme Augusto Inácio de Cunha Guimarães, foi feita na antiga casa do barão do Ramalho. A esta obra dedicou todo o seu esforço o vice-reitor de então, Manuel Medeiros Guerreiro.
O Sismo de 1980
O edifício manteve-se com a nova estrutura dos anos de 1930 até 1 de janeiro de 1980, quando um violento terramoto destruiu completamente a capela e arruinou a zona de quartos destinada a alunos e professores. A inauguração, após a reconstrução, deu-se no ano de 1985.
Ano de mudança – 2024
O acontecimento mais recente, marcante, desta longa história do Seminário de Angra foi a decisão de se enviar para o Seminário do Porto os alunos, cujo número foi reduzindo drasticamente nos últimos anos. Esta decisão saiu após reflexão do clero diocesano, que culminou com o parecer favorável do Conselho Presbiteral, realizado entre 15 e 18 de abril de 2024, de se enviar os seminaristas do Seminário Episcopal de Angra para fazerem todo o percurso académico no Seminário e Faculdade de Teologia do Porto.
Após a conclusão do curso de Teologia, os seminaristas voltam à diocese de Angra para fazerem dois anos mais: um ano Pastoral e um ano de Estágio.
Esta é a situação em que atualmente se encontra o Seminário Episcopal de Angra, continuando a sua tarefa de formação, agora de forma mais alargada.
